Dois anos fora de Portugal fazem com que algumas coisas sejam completamente novas para mim e outras tenham que ser redescobertas. Espanha foi a minha casa de forma absoluta nestes dois anos e agora dou por mim a sentir-me muitas vezes como o filho que regressa dos anos de faculdade à casa paterna e encontra uma nova mobília de quarto.
Há coisas deliciosas em Portugal. A comida é deliciosa em Portugal. O leite Agros, os iogurtes Longa Vida, o arroz Saludães, a carne, o peixe a tremer de fresco. Não comi nada no estrangeiro que se comparasse à qualidade destes produtos, de embalagens simples e sem espalhafatos. Em Espanha, o aspecto é tudo e os supermercados são cheios de luz, as embalagens cheias de cor, a carne reluzente, mas o Lechera Asturiana não tem este sabor a prados do Minho do nosso Agros… Os preços não são exagerados: os portugueses é que ganham pouco. O preço do carrinho do supermercado consegue ser igual ou até inferior ao de Espanha, mas o salário do espanhol anda pelo dobro e isso faz com que haja maior abundância de oferta ao nível da cosmética e artigos de luxo. Creio também ser por isso que o papel higiénico húmido e perfumado já entrou em todas as casas espanholas e aqui ainda está num fundo de prateleira onde ninguém lhe pega (*piadinha*).
As pessoas. As pessoas em Portugal ainda são amáveis. Ainda nos dizem, quando nos vêem na fila do supermercado com um carrinho cheio de peixe e carne, que fazíamos bem em meter tudo dentro de um saquinho térmico, que é de graça e tudo. Ainda nos dizem bom dia e boa tarde gratuitamente, embora com ar sisudo, e têm o cuidado de nos dar o pão mais branco ou as maçãs mais verdes, se assim pedirmos. Aqui, perdoem-me, falo das pessoas a Norte, porque a Sul a indiferença é maior, pela densidade populacional e por um certo desprendimento inerente à personalidade de Lisboa. As pessoas andam tristes e desanimadas por cá, mas continuam a ser, no geral, boas pessoas, gente honesta e trabalhadora.
Não sou nacionalista. Sou de muitos lados. Não sou patriota – mas digo-vos, meus amigos, que já andei por muitos sítios, que já comi em muitos sítios, que já conheci gente de todos os lados e que ar do mar como o nosso, comida quente como a nossa, gente afável como esta (por muito que os outros sejam mais festivos ou mais competentes) dificilmente se encontra por aí.
(Uma nota muito negativa para a televisão, que continua péssima e a dar trabalho sempre aos mesmos, com demasiada abundância de novelas brasileiras e CSIs)
