Empatia

Uma das maiores manifestações de afecto que se pode ter com alguém é a empatia. A empatia de partilhar os bons momentos, mas também a empatia de conseguir sentir a dimensão do desgosto alheio, sem o comparar com o nosso.

Muitas pessoas medem sempre a tristeza dos outros pelo seu barómetro. “Se o meu desgosto é maior, por que é que eu hei-de sequer dar-me ao trabalho de ouvir o teu?”. Elas é que sofrem, elas é que choram, elas é que são as mais desgraçadas à face da terra. Os outros? Ninharias. “Eu é que”. E pronto, não passam daquilo. Pelos mais variados motivos, há quem consiga atingir verdadeiros picos de egoísmo, mesmo dentro de relações a dois. Depois não percebem que as pessoas procurem outros consolos para as suas mágoas, outras pessoas que as façam sentir amparadas e que aquele é que é o maior desgraçado da História… some mais um desgosto.

A mim, isso dói-me particularmente porque nunca o faço. Tento que nunca tenham pena de mim. Tento perceber sempre como as coisas afectam os outros, por mais pequenas que me possam parecer. Mas também quero reciprocidade. E quero que se respeite os momentos em que o meu desgosto me entristece tanto que não suporto ouvir mais nenhum por algum tempo. Sou humana e gosto que me ouçam também nas minhas dores. Toda a gente perde gente, toda a gente sofre, toda a gente precisa de apoio. Se nos concentrarmos só no nosso umbigo, exigindo por aí que os outros sejam o nosso lenço do ranho e das lágrimas, acabamos a sofrer sozinhos. E se sofrer é mau, sofrer sozinho é duplamente pior.

Digo isto porque esperava mais de algumas pessoas relativamente (não muito) próximas e cujos laços familiares deviam fazer com que, pelo menos, me poupassem aos seus dramas num dia em que ainda digeria mais um funeral. Que, pelo menos, me perguntassem como estava, em vez de debitarem choradeiras e histórias repisadas dos seus dramas ouvidas mil e uma vezes já (e que ouvi pacientemente, sem me queixar, no seu momento), sem se importarem que, naquele dia, eu também tinha o direito a sofrer.

Fica registado. A quem não sabe ouvir nem quer saber, faz-se o mesmo. Ouvidos surdos para gente assim.

7 Respostas para “Empatia”

  1. Tocou-me particularmente uma frase: “tento que nunca tenham pena de mim”. Os amigos não têm pena de nós, ficam tristes connosco. E estar tristes connosco é não falar dos problemas deles (esses não são amigos). Os amigos ficam ali, mesmo que não digam nada ou quem nem oiçam nada, estão ali.

    Um abraço.

  2. Infelizmente aqueles que sofrem de “umbiguismo”, como costumo dizer, tem vindo a crescer.

    Li tudo o que escreveste nos últimos posts. Admiro a tua coragem por, apesar da dor, conseguires escrever assim do que te vai na alma e no coração que, acredito, fique “pela metade” (como disse o Pessoa), pois as palavras são sempre diferentes e insuficientes para o que sentimos.

    Fica bem. :)

  3. Eu não pediria tanto como empatia! Um pouco mais de respeito e consideração pela dor dos outros, como referes, faria toda a diferença…

  4. A vida é mesmo feita disto… de lições:

    “A quem não sabe ouvir nem quer saber, faz-se o mesmo. Ouvidos surdos para gente assim.”

    :) gostei e não podia concordar mais com o que escreveste.

  5. Pode até ser… mas a empatia não se escolhe. Como tal será algo mais que afecto.

    Beijinhos.

Deixar uma Resposta