Entre Brontë e Rhys, menos que um mar de sargaço…
Há um toque obscuro na literatura vitoriana que me faz vibrar. Sinto-me estremecer por dentro com os anti-heróis já do fim do Romantismo, homens sem glória que se rebelam contra os deuses, contra o destino, contra a sorte.
Assim é Mr. Rochester, o fio de ligação entre estas duas obras. E se em Jane Eyre adquire contornos de vítima da vida e das circunstâncias, pela mão de Jean Rhys torna-se no motor da sua própria desventura, arrastando consigo e para a loucura a primeira mulher, Bertha.
Bertha e Jane têm papéis diferentes nestas duas autoras; enquanto que Jean Rhys faz um exercício de literatura dentro da literatura, agindo como elemento libertador do estigma que persegue Bertha, Jane Eyre aparece como a mulher honrada e digna que não se deixa arrastar pelo “monstro” Rochester. Entre a loucura e a malvadez, a crucificação de Bertha aparece em Brontë como a única saída possível para a resolução do drama.
Porém, Bertha é rebaptizada por Rhys, que lhe chama Antoinette, e acaba ali a sua demonização. A perversão e o vício dessa Jamaica longínqua, terra de bárbaros onde os ocupantes britânicos aparecem como os únicos sinais de pureza apenas manchada pelos brancos-negros (de ascendência inglesa, mas já nascidos entre os nativos), é o trilho da perdição. Da perdição de Rochester, de Bertha e, consequentemente, de Jane, que parece renascer mais de um século depois de ter sido criada por Brontë pela mão de uma mulher já tão longe do seu tempo.
Entre estas duas obras, há eras inteiras de separação. Há duas autoras igualmente conturbadas, dentro do seu tempo: enquanto que Charlotte perece e cede perante as endemias da sua época, Rhys mergulha na penumbra desencantada do início do século XX.
Bertha/Antoinette para Rhys e Jane para Charlotte. Ambas para Rochester. E todos nas mãos do destino.