Mãe

Eu costumava fazer-lhe desenhos que só lhe conseguia entregar um mês depois. E ficar à espera que ela viesse, com as horas a passarem diante dos olhos, até perceber um dia que não valia a pena esperar.

Depois, passei a mandar-lhe um postal. Todos os anos, ela abria-o apenas no dia e dizia-me ao telefone (porque eu já não vivia ali) o quanto gostava de mim. Porém, já não era a mãe dos desenhos que nunca chegavam ao destino, mas sim a minha avó.

Ela foi a minha verdadeira mãe. Desde que ela morreu que a minha mãe tenta uma aproximação com telefonemas ocasionais, como se o lugar agora pudesse ser dela. Não pode; as pessoas não são substituíveis e o lugar de mãe foi ocupado por outra pessoa. Não tem retrocesso. Portanto, ontem, pela primeira vez em muitos anos, não telefonei a ninguém. Doa a quem doer, porque a mim doi-me muito mais que se pense que, agora que ela já cá não está, o lugar está em aberto. No dia 18 de Junho, eu perdi a minha mãe, não pus o lugar à disposição.

Eu recebo todos os dias abraços, mimos, beijinhos, desenhos feitos na escola, birras, asneirolas, fraldas para mudar. Porque estou aqui para os receber. E porque mereço. Porque ser mãe é um pacote completo, do qual não podemos querer apenas uma parte.

12 Respostas para “Mãe”

  1. Tenho que fazer um desenho á minha mãe com o croqui cá de casa, para ela um dia que queira cá vir não se perder.

  2. Somos dois, porque moro aqui há quase um ano e a minha também ainda não veio cá.

  3. Tudo de bom. És uma boa mãe! E isso vale tudo!

  4. Manuela, eu TENTO ser uma boa mãe. Se o futuro ditar o contrário, pelo menos saberei que fiz o que pude e que não foi por falta de vontade e de tentativa.

  5. Abraço apertado babe. E orgulho por ser tua amiga :)

  6. Comentar o teu post é falar sem conhecimento. Porque eu sempre tive uma mãe que foi tudo… 100% presente, dedicada, que abdicou de carreira e vida pessoal para dedicar às filhas e ao marido, que sempre nos protegeu das fúrias do meu pai, que sempre nos apoiou em todos os momentos difíceis, que sempre antecipou quando estamos pior e aparece ou faz qualquer miminho só para dizer que há ali alguém que compreende… mesmo que isso seja passar 3 meses do outro lado do atlantico abandonando marido, filha e pais que precisavam dela porque outra da prole estava mais necessitada, que sempre nos incentivou a ser mulheres, seguir estudos, carreira, independentes de qualquer homem, sem medo de nos levar ao médico para tomarmos a pílula e mostrar como se colocam preservativos.

    Claro que essa mãe também nos põe os nervos em franja por ser mãe galinha e se preocupar demais com os nossos problemas… mas isso já não é defeito. E eu, feita estúpida, ontem ainda tive a lata de amuar com ela porque não lhe apateceu sair comigo.

  7. Há nós que nos prendem para sempre (não necessariamente os de sangue) e há laços que depois de desatados não tem mais compostura…

  8. Teres tido uma mãe na tua avó, torna o post menos triste…
    Espero que, um dia, tu e a tua mãe ainda consigam se encontrar, não necessariamente nos papéis de mãe e filha, mas…
    Acima de tudo, parabéns pela linda construção que tens feito.

  9. Ainda ontem liguei à minha mãe para lhe dar os parabéns porque fez anos, começou a falar (conversa sempre a mesma, a cadelinha teve diarreia…), coloquei o TM em alta voz, e continuei o que estava a fazer no quarto dos miúdos.

    Só desliguei o alta voz quando começou a falar de um dos meus filhos que é um clone meu e que vai esperar para ver os mesmos problemas que ela teve comigo, que vai esperar para ver como os vou conseguir resolver…blá, blá

    Fdx, de certeza que nenhum dos meus filhos vai dormir nas escadas do prédio por eu não ouvir bater à porta, por ter tomado uma dose valente de comprimidos para dormir por me ter chateado com o namorado, para não falar de muitas e muitas parecidas.

    Por isso, vai morrer longe…

  10. Conheço essa sensação de tudo ser mais importante do que eu: o segundo marido, os quadros, a arte, as viagens… Como se pudessemos parar o tempo de acordo com as nossas conveniências e pegar na ponta que nos apetece 20 anos depois. A minha mãe por um lado, o meu pai por outro a fazer exactamente o mesmo mas de maneira diferente. Agora queixam-se de uma solene indiferença que não consigo evitar perante as aproximações arrependidas. Já não importa, porque o tempo passa e cria muralhas de gelo entre nós e determinados sentimentos.

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