Madrugá
Madrugá. A noite mais longa de Sevilha, quase estragada pela chuva torrencial que se fez sentir ao longo do dia. Imagens barrocas, com centenas de anos e restauros caríssimos, não se deixam ver para a devoção popular se o tempo puder colocar em causa a sua integridade.
Mas saiu. Primeiro o Cristo de la Sentencia, à 1h da manhã. Com pose resignada, aos pés de Pôncio Pilatos, foi o primeiro pálio a sair da Basílica da Macarena. Duas horas de espera, de pé, para ver sair a Senhora de Sevilha: a Virgem da Macarena. Ao meu lado, uma família peruana esperava também, um grupo de adolescentes comia pipas para matar o tempo e outro fumava um charro, cujo cheiro que misturava com o forte odor a velas e a incenso.
Eis que chega, ao som de palmas. As velas rasgam o céu, negro, muito negro, enluarado de gala. Um grito começa a tradição: ¡Macarena! – gritam uns. ¡Guapa! – respondem outros. Uma multidão de gente com lágrimas que deslizam pela cara abaixo, mesmo que não se queira. Mesmo que não se seja crente. Aquela é a Senhora de Sevilha, a rainha acima de qualquer rainha, a mais amada, a mais bela. De manto camaronero tecido a ouro, com a bandeira espanhola ao peito, os armaos atrás (cópias dos soldados romanos que acompanharam Cristo na Via Sacra) e os penitentes, mais de 2500, e um pouco do coração daqueles que, uma vida inteira, exclamam “mi Virgencita de la Macarena” nos momentos de aflição.
Saída a Macarena, que ficaria na rua até às 14h30m, contornamos a muralha que abraça a Basílica em direcção ao Cristo de los Gitanos. O ambiente ali era mais escuro, porque a igreja fica numa ruela medieval que sufocava tanta gente. Vimo-lo numa esquina mais à frente. Um carroceiro da Catedral de Sevilha meteu conversa connosco por causa do miúdo, que seguia tudo de olhos muito abertos, às 3h da matina. Estava desperto pelo ar frio e pela novidade. Estava na altura de ser apresentado à fe de sus mayores, como diz o poema de Machado.
- Viene Emanué – dizia o carroceiro. Emanué. Emanuel. Aquele que fez calar os ciganos de toda a Espanha que se espalhavam em bulerías pelas ruas. Assim chamam os calés ao seu Cristo: Emanué. Um nazareno olha-me de frente, por trás do chipirote (capuz) e estremeço. A vela que ele leva nas mãos queima-me o peito, faz-me chorar. Sai o Cristo de los Gitanos, siempre con la sangre en las manos. Conta-me a lenda, o carroceiro: o escultor teria já completo o corpo da imagem, mas faltava-lhe o rosto. Uns meses mais tarde, depara-se com uma cena na beira da estrada e com o rosto de um calé morto com duas facadas. Assim nasceu o rosto sofrido desta imagem, cópia fiel de um calé assassinado.
A banda toca uma saeta, nova, segundo me diz o carroceiro. Dá-me uma estampa da Irmandade, que aperto com força no bolso. E se a Macarena é uma linda imagem barroca e a maior Irmandade de Sevilha, esta do Cristo de los Gitanos foi criada por três ciganos em 1715 e apadrinhada pela Casa de Alba desde há muito tempo. A próxima pará (paragem) seria em frente ao Palácio de las Dueñas, onde a Duquesa de Alba ou um dos seus filhos traria numa bandeja de prata a sua oferenda.
Ao nosso lado, os costaleros preparavam-se para substituir os outros irmãos cansados no transporte do pesadíssimo andor e para mais uma levantá (momento em que se levanta o andor para que o povo o veja melhor). Juntam-se mais e mais penitentes. O ar torna-se feérico e há como que uma luz sobrenatural no ar, nas varanda enfeitadas de colchas carmim. Tambores funerários criam um ambiente quase hipnótico. É perturbante e quase sinistro, mas mexe com aquela corda emocional que todos os andaluzes trazem dentro de si.
A criança adormece. Depois de sorrir à Virgem, de ver com curiosidade e silêncio o Cristo, adormece e percebemos que a madrugá acabou ali para nós. Caminhamos mais meia hora até ao carro, já exaustos por quatro horas de pé, mas com o coração cheio de saetas e de lágrimas. Quando se aproximam de nós as imagens, nasce uma prece. A minha foi para os que partiram. A minha, que não sou crente, mas que sou profundamente andaluza quando se trata de pôr a mantilha e cumprir la fe de mis mayores, que é como quem diz a força do sangue que move toda esta gente.
Macarena… guapa… soa ainda nos meus ouvidos. Dormi mal, do cansaço, da emoção. Como se, dentro de mim, o Cristo que se ergue na cruz não tivesse ainda ressuscitado. Como se ainda não me tivesse reconciliado com os meus crucificados. Como se o meu Sábado de Aleluia não tivesse chegado. E não chegou. Será amanhã.
Saída do Cristo de los Gitanos
As melhores imagens da Quinta-feira Santa em Sevilha
Março 22, 2008 às 2:26 pm
Olá vim retribuir a visita e gostei do que li por aqui, voltarei se me permitires
Março 22, 2008 às 4:03 pm
Sempre bem-vinda, Atlantys
Hei-de lá voltar também.