Anita vai ao médico
Transferida que está a minha vida para Espanha, chegou a hora de resolver os problemas médicos que me acompanham, até porque a medicação estava a acabar e o meu avô pode ser preso por comprar medicamentos sem receita ao amigo farmacêutico e mandá-los pelo correio (errr… *joking*).
Médico de família. Explico-lhe a situação da bipolaridade. Passa-me os medicamentos na boa, sem questionar muito a minha sanidade mental. Diz-me apenas que tem que marcar consulta para o psiquiatra, para confirmar o relatório, mas que poderia levantar os medicamentos na farmácia (um deles teve até direito a carimbo de aprovação de relatório médico por um gabinete XPTO lá do centro de saúde, por ser coisa que dá para tomar uma caixa e morrer). Marca-me análises de rotina ao sangue e pronto.
Segunda-feira, psiquiatra. Here we go again. Primeiro, perdi-me e cheguei dez minutos atrasada, o que deixou a médica um bocadito enervada (ela é que precisa de ansiolíticos). Depois, quase me ri na cara dela quando me pediu que fosse a Portugal buscar um relatório médico. Já fartinha da mulher, explico-lhe a cena: sem medicamentos, não durmo. Tenho um problema de ansiedade grave. Consigo trabalhar e fazer mil e uma coisas em dezoito horas do dia e ir para a cama sem sono (pico ascendente). Fico uma máquina, mas passado umas semanas caio para o lado de cansaço e entro em depressão (pico descendente). Preciso, por isso, de manter o meu grau de hiperactividade controlado e não permitir que o meu corpo não me dê descanso, de forma a que não existam ciclos bioquímicos com estados de humor alterados. Bipolaridade, entendes? ‘Tás a captar? Pronto, eu conto-te tudo desde o início. Ia eu a meio do relato e já ela estava convencida. Mesmo assim, insistia no raio do relatório e eu digo-lhe que lhe levo o guia de medicação e os cartões todos que tenho de consultas várias. Lá ficou ela contentinha, mas eu é que já não a podia ver à frente. Acabo por lhe dizer que só estou ali porque o médico me mandou, que estou estável há 3 anos, que não tenho nada que me apeteça contar-lhe, que não estou deprimida ou maníaca, que não tenho a mania da perseguição, que aquela medicação fez maravilhas por mim e que não fui ali à caça de medicamentos para alimentar o vício, porque tenho uma farmácia em casa que dava para morrer três vezes. Repito: só estou ali porque o médico de família mandou, atendendo à especificidade da medicação que tomo (já em doses baixíssimas).
Ela ficou assim um bocadito encavacada por eu ter percebido que o problema da Sô Tôra era eu ser uma agarrada qualquer em busca de uma receita para encher a cabeça. O raio da fedelha (tinha pouco mais da minha idade) marca-me outra consulta para dia 6 de Fevereiro, para a gente se conhecer melhor e tal, e ficou assim um bocadito cabisbaixa pelo meu ar de frete. Gosto pouco de gente que começa por desconfiar logo à partida e que me façam passar por uma junkie qualquer. Adoro psiquiatras saídos da faculdade, com aquelas teorias todas fresquinhas. Entram a matar, eu disparo de volta. Sei muito bem onde querem chegar, porque tenho uns anos disto, e já não entro nesse jogo da súplica pelo medicamento.
Conto os medicamentos e percebo que o Sr. Dr. Médico de Família (já dos seus cinquenta anos) me deu abastecimento para três meses, acreditou na minha palavra, não me tentou fazer passar por agarrada aos ansiolíticos. Assim sendo, a Dona Psiquiatra vai ficar a falar sozinha com as teorias dela, porque no dia 6 de Fevereiro eu vou lá “mas é pregos”.
Eu não sou doente mental, não sou desequilibrada, não sou viciada em nada. É quase ofensiva a forma como estes médicos começam por procurar uma ponta por onde nos pegar, como se estivessemos ali a ser julgados na nossa sanidade mental e nos nossos vícios (até nos que não temos). Preciso de medicamentos para ter qualidade de vida - e depois?! Fecho mal o capô, mas q. b. Tive os meus momentos maus, mas aprendi a lidar com os sintomas e a prever aquele ponto em que me sinto realmente mal (consequentemente, aprendi a evitá-lo e a procurar tratamento a tempo).
Estou um bocadito cansada disto. Passem-me lá a medicação, que dos meus fantasmas trato eu. A arrogância destes estranhos que pensam que podem remexer nas nossas histórias e dramas pessoais só porque têm um diploma colado na parede a dizer “Médico” revolta-me cada vez mais e faz com que tenha cada vez menos vontade de me entregar nas mãos dos “psis” deste mundo. Infelizmente, preciso dos medicamentos deles. Não fosse isso e fazia como a minha mãe, que diz que supera a menopausa com tisanas, exercício físico, meditação e terapias orientais e não toma uma pastilha que seja há décadas (*sorriso irónico, ou seja, sou eu a dizer que não acredito*).
Janeiro 28, 2008 às 10:54 pm
Há médicos que não se sentem bem se não nos receitarem uma farmácia inteira, ou se não nos diagnosticam, pelo menos, uma pequena infecção “ordinária”… Mas aqui em Portugal, que me lembre, o povo ajuda a situação, porque se sair do médico sem uma receita tamanho família, ou sem uma doença daquelas que mais ninguém tem, o médico não vale um chavo!…
Janeiro 29, 2008 às 2:02 am
O que é curioso é que sejam precisamente os médicos da especialidade a “desconfiar” da doente.
Boa semana.
Janeiro 29, 2008 às 12:13 pm
Acho que há uma situação idêntica mas com um sintoma diferente, a dor! Muitas doenças provocam dores terríveis às quais muitos médicos são completamente insensíveis. Conhecem o conceito mas não conhecem a dor.
Tenho uma doença dessas e tenho encontrado ene pessoas que por não conhecerem não acreditam que a tenho. Até no seio familiar já notei isso. Há dias perguntava ao meu marido por que razão as pessoas não acreditam, se eu não peço ajuda a ninguém, se sou completamente autónoma (não devia porque pioro, mas sou e recuso-me não ser), se não me queixo com o intuito de ter uma baixa porque não preciso, se nunca adoptei postura de coitadinha porque não sou, porque duvidam?
Tenho limitações? Sim, tenho, mas habituei-me a conviver com elas e arranjo alternativas para conseguir fazer uma vida normal. Em crise não consigo estender roupa, por exemplo, que se lixe prego com ela na máquina de secar. Tenho dificuldade em despir-me/vestir-me, paciência demoro mais tempo. Não consigo cortar o bife, nesses dias não como fora de casa e agarro o garfo com o dente e a outra mão faz deslizar a faca o tempo que for preciso até cortar ou trituro… Não importa, desenrasco-me. É óbvio que o meu marido não deixa de me ajudar se estiver em casa, mas eu não peço ajuda a ninguém, logo, porque não acreditam? Que razão há?
Beijo
Janeiro 29, 2008 às 12:41 pm
LOL, a Léle até tem razão, cá em PT é isso mesmo!!!
Oh moça tem calma, sabes que ela também não te conhece e não se quer arriscar a levar depois com um processo em cima.
Vai lá falar com ela no dia 3 Fev ;), até podes voltar a precisar dela para teres novamente os medicamentos, ou não?
É bom quando nos sentimos bem com um problema nosso, quando já sabemos encara-lo de outra forma e conseguimos viver bem.
:-*
Janeiro 29, 2008 às 2:46 pm
A questão aqui é que há cada vez mais gente que faz tudo por uma receita. Os medicamentos psiquiátricos são particularmente perigosos porque se prestam a outros usos: suicídios, substituição de drogas, etc. e há gente que inventa de tudo para obter uma receita de ansiolíticos para poder depois “encher a cabeça” à vontade. Depois há aqueles que precisam mesmo deles. Eu estou neste grupo porque, se pudesse dispensá-los, era a primeira a viver sem medicamentos.
Eu entendo que os médicos ponham as suas ressalvas, mas também me parece que uma relação médico/doente tem que se basear na confiança mútua. Eu não vou a médicos com quem não empatizo para além da primeira vez. Médicos há muitos e estes têm que ser pessoas que nos ouvem e que nos tratam com dignidade, independentemente dos nossos problemas.
Dignidade. Eis a chave da questão. Dignidade na maneira como enfrentamos as nossas fraquezas, como a Luz, que faz um relato valente de como não baixar a cabeça. Dignidade como aquela com que a Narizinho enfrentou os seus problemas e lutou para conseguir engravidar, independentemente dos seus problemas de saúde. Essas pessoas merecem toda a admiração.
As doenças não podem limitar-nos mais do que o mínimo indispensável. Temos que lutar contra elas, porque elas tomam de nós a todos os níveis se baixarmos a guarda.
Muita gente acha que a bipolaridade se trata “com uma ida para os copos” ou “umas ganzas”, ou que é uma modernice. Há quem a use para justificar todo o tipo de loucuras. Há quem gostasse de poder dizer que a tem para justificar tipos de vida tresloucados (dá jeito ter um problema qualquer para se viver amoralmente ou de maneira exageradamente “livre”). Por isso, os médicos são sempre muito cautelosos com estes diagnósticos. Eu andei anos em análise e tratamento antes do diagnóstico final. No entanto, conduzi a minha vida com moralidade e não me “perdi” nas drogas, álcool, prostituição, nem em loucuras afins. Tirei um curso superior, casei, tive um filho, construi uma carreira profissional, consigo gerir o meu próprio negócio, sobrevivi à morte da minha avó, à minha infância, aos meus problemas familiares. Isto é a prova de que ser bipolar não é ser desequilibrado ou louco ou, mais importante ainda, amoral, e de que há vida para além de um diagnóstico de um problema psiquiátrico.
Com medicação no ponto certo, uma vida equilibrada e sem excessos (eu abdiquei completamente do álcool - que nunca consumi - e de drogas - que consumi esporadicamente - de há 5 anos para cá) e com lucidez é possível sobreviver a qualquer coisa. Os médicos são fundamentais para nos ouvirem quando dizemos “sinto-me mal” ou “esta medicação não faz efeito”. Para julgamentos, basta os da sociedade e os de quem nos rodeia. Não fumo, não bebo rigorosamente álcool nenhum, não tomo drogas, faço exercício físico, tenho uma alimentação saudável - não admito assim que gente que fuma três maços por dia e bebe duas garrafas de vodka por fim-de-semana me chame a mim problemática porque preciso de medicamentos que regulem os meus ciclos bioquímicos.
Abraços a todas.
Janeiro 29, 2008 às 7:59 pm
E não és não, de malucos percebo eu né :), ou não andasse a dez anos no meio deles, por acaso ainda não trabalhei com nenhum/a psiquiatra novo/a, já são todos entradotes e com bom nome na praça…
Janeiro 29, 2008 às 9:03 pm
No comentário que fazes acima, explicas bem a razão do excesso de zelo, da nova médica. È preciso paciência. Sabemos que por uns acabam por pagar os outros.
Isto da net, é bom por poder partilhar experiências de vidas diferentes e sobretudo iguais.
Janeiro 29, 2008 às 10:12 pm
Obrigada, pelo teu post, do fundo do coração.
Em relação a este eu sinto o mesmo que tu quando tenho que mexer no meu passado nas coisas que me fazem doer, por isso só vou ao médico de familia, a medicação é a mesma, por isso só vou a ele. Tou farta de correr psiquiatras e todos eles me olharem como doidinha ou agarrada como tu tão bem dizes. Abraços e lambibeijos na Puma
Janeiro 30, 2008 às 12:33 pm
Grande post. Eu cá sou daquelas que nunca toma nada, ainda há pouco tempo o sr dr otorrinolaringologista eheheh receitou-me uma carrada de coisas e eu não tomei nada, ou quase nada. Não é por mal, esqueço-me não gosto etc…
Uma coisa é certa: médicos novinhos são irritantes até à 5ª casa!
Olha lá, deixei-te lá um prémio ó desavergonhada! lolol
Fevereiro 8, 2008 às 1:13 am
Phonix, finalmente encontro uma bipolar que não se sente a mais miserável das criaturas!!!!
Eu amo ser bipolar, aprendi…depois de umas experiências mais ou menos infelizes….a estar sempre num estado de “pré-hipomania”: Super feliz, criativa, rápida no raciocinio,….enfim a minha vida é bela!!!!!!!
Não tenho pena de ninguém, pois aprendi que o sofrimento torna-nos mais fortes, hábeis, maduros, e é esse o caminho da felicidade (verdadeiro sentido da vida)!
Boa estadia ai em Espanha!