I’m not good enough for them
Sou uma saloia. Eis que chegam as prendas “do Portugal” e eu constato que três pessoas diferentes me enviaram sabonetes. O meu pai percebeu a minha cara de espanto e tratou logo de frisar que são sabonetes finos e que a Ach Brito é que é. Pronto. Tudo muito bem, não fosse eu ser alérgica a sabonetes. Só uso gel de banho ultra-hidratante, pois com sabonete ando a coçar-me quinze dias de tanta limpeza. Tantos érios para perfumar gavetas. Um desperdício gastá-los comigo.
Ganhei uma máquina digital toda fixe. Uma pena eu detestar tirar fotos. Em suma, sou uma saloia. Tenho uma família tão chique, que acha que trocar caixas de Ferrero Rocher é piroso, e os presentes de que eu mais gostei não foram, nem de longe, os deles. Há coisas tão snobes mas tão snobes que uma pessoa foleira como eu não pode compreender. Uma delas é como é que alguém pode gostar de tomar banho com sabonetes a cheirar a ameixa.
Eu até me sinto culpada. Porém, não há maior compensação para mim de que o meu marido, que reconhece que não sabe comprar presentes, perder tempo a escolher qualquer coisa. E gostar de fazê-lo. E, três anos depois, ao ver-me com a écharpe posta que ele me ofereceu no nosso primeiro ano de casados, ouvi-lo dizer contente: “Esse lenço foi o que te ofereci!” (um homem dificilmente diz écharpe, a menos que… as use).
No meio de tanto presente bonito, estava o velhinho serviço de chá da minha avó. Aquele que eu exigi, porque ela sempre disse que seria para mim. Aquele que nunca usávamos, porque era tão velhinho e podia partir-se. E, no meio daqueles euros todos a reluzirem, aquelas chávenas amareladas pelo tempo encheram-me o coração. Porque lembraram-me de um carinho que já não existe, e que era tão pouco material, mas que fazia com que cada presente fosse uma festa.
Muitos dos meus amigos enviaram presentes por correio. E eu enviei a alguns. Nesses presentes, na gentileza da Inês Ervilha ao mandar-me o “Deus das Moscas” pelo correio como os amigos de correspondência de antigamente, nos beijinhos que o meu filho dá em forma de lambidelas (gosta do sabor do meu creme de noite), nas brincadeiras da minha cadelita, nas revistas que o meu avô vai guardando para trazer quando cá vem, no esforço que o meu marido faz por encontrar um presente “digno de mim” (como ele diz), há o cheiro antigo antigo do afecto. Esse que reencontro nos objectos que herdei da minha avó. Contabilizado em euros? Não valem nada.
Janeiro 6, 2008 às 11:34 pm
Em euros não valem…em riqueza de emoções e intensidade de sentimentos ternos…têm um valor incalculável…
Janeiro 7, 2008 às 10:17 pm
queria aproveitar para dizer… obrigada pelo mês do ano passado. mesmo que não volte a repetir a experiência. descobri porque isso não entrou no blogue - faz parte dos acontecimentos privados e/ou relacionados com família, que eu mantenho dentro da esfera privada da minha cabeça, mas não ponho a disposição dos meus apreciados comentadeiros.
Janeiro 7, 2008 às 10:20 pm
não estão ali os 365 dias da minha vida. nem de perto. mas eu percebo que me falta discutir mais as coisas, e falar sobre elas.
p.s. - mesmo assim ter-me-ias “perdido” para qualquer coisa que aparecesse fruto dos curricula enviados para todos os sacrossantos anúncios que encontrei ao longo.
felicidade naquele escritório apressado. e mesmo no cartanito bermelho.
Janeiro 8, 2008 às 9:06 pm
;o)