Ainda não sei exactamente o que pensar deste ano que agora acaba. Oscilou entre o muito bom e o muito mau, entre a separação e o reencontro, entre o fim e o princípio, entre os sonhos concretizados e ciclos que se fecham para sempre.
2007 em breves linhas… é complicado.
Em 2007, mudei-me para Espanha, coisa que já planeava fazer há muitos anos. Finalmente sinto-me em casa, em Sevilha, depois de seis penosos anos numa cidade onde detestei viver (Lisboa) e da consciência de que, apesar de amar o Porto, esta ser uma cidade demasiado pequena para mim. Consegui finalmente ter os certificados de que precisava para me inscrever na Universidade de Sevilha e dedicar-me àquilo que quero estudar desde sempre, a Literatura das Vanguardas do Séc. XX, com particular incidência na obra do poeta García Lorca. A Nova e a sua ineficiência visceral fizeram com que não me pudesse inscrever ainda este ano (deram-me o certificado a 30 de Novembro, completamente fora do prazo) e originaram com que eu selasse em mim a promessa de que não hei-de voltar a pôr os pés naquela espelunca mal construída e mal gerida ou, se lhe quisermos chamar, centro de trabalho dos arrivistas trotskistas e verdes eufémias e vândalos afins. Aquilo é tudo menos uma faculdade e, pela minha parte, hão-de ver os meus fundos académicos bem de longe. Dos professores à gestão administrativa, a Nova leva da minha parte um zero bem redondo. Pelo menos, ao olhar para o meu certificado, consigo ver que cumpri o objectivo de média final a que me propus, o que me dá a sensação de dever cumprido e de anos de sacrifício que valeram a pena.
Em 2007, tive que reorganizar a minha vida profissional depois do desaire dos primeiros meses, em que o meu cliente principal, que representava 90% dos meus rendimentos, deixa de pagar com regularidade. Felizmente, tudo se resolveu e consegui relançar a minha vida profissional e viver sem preocupações.
Em 2007, precisamente a meio do ano, perdi a minha avó, o que significa que perdi os meus pais e fiquei orfã. Dói muito ainda, mas começo a aprender a lidar com o desgosto. Estive os cinco primeiros meses sem falar com o meu pai (pela enésima vez), estive sem falar com a minha mãe até Maio (as usual), estive distante de toda a minha família materna, mas este foi também um ano de reencontros. A relação com os meus pais continua distante, mas reencontrei-me com aqueles a quem devo os melhores momentos da minha infância, os meus primos.
2007 foi também um ano de amigos. Engoli o orgulho e fui resolver desentendimentos antigos, porque amigos há que, quando os perdemos, nos deixam uma saudade que nos acompanha por anos e anos. Recuperei um dos principais protagistas da minha adolescência, o Karl Macx, reencontrei o Pedro, veio até mim o F., voltei a entender-me com a L., afastei-me dos chamados “amigos tóxicos” (aqueles que contaminam a nossa vida) e acabo o ano com uma contagem muito positiva da amizade em 2007. Sinto que aprendi a deixar o orgulho de lado e a viver melhor os afectos. A vida é muito triste se desaprendermos a amar constantemente.
O meu menino cresceu a olhos vistos. Começou a caminhar, a brincar, a correr, entrou para a escola. Se 2006 foi o ano marcado pelo nascimento dele, 2007 foi o ano em que aprendi verdadeiramente o que é ser mãe. Ele cresceu e eu também.
2007 foi o ano em que recuperei a forma anterior à gravidez. Perdi 15 kgs, muito em parte devido ao desgosto da morte da minha avó, à mudança de país, a um puto que nunca está quieto. Voltei a ter cabelo preto azulado, mudei de penteado, renovei o guarda-roupa, voltei a cuidar-me mais e mais para recuperar do cansaço e do desgaste de uma gravidez complicada e de uma criança tão pequena. Voltei a fazer máscaras e tratamentos, a arriscar novas cores e novos tecidos, a vestir calças justas, a recuperar peças do meu armário. Voltei a olhar para o espelho e a sentir-me bem.
Em 2007, perdi o meu cão. Será sempre insubstituível, porque foi dos melhores amigos que tive. Agora tenho outro, mas não posso dizer que seja a mesma coisa. Havia um laço entre nós que fará com que seja sempre mais um amigo que deixou saudades.
2007 teve coisas muito boas e muito más. Tive que recorrer a todas as minhas forças, procurar todos os vestígios de combatividade, dar tudo de mim, lutar mais e mais. Acabo o ano cansada, desgastada até, mas em paz. Obrigada a todos que estiveram comigo neste ano. Que continuemos juntos em 2008 e em todos os anos das nossas vidas.
A minha foto de 2007 é, sem dúvida, esta. Foi tirada numa noite de festa flamenca, em que me perdi em pensamentos. E, se os meus olhos brilham também de alegria, olham para o horizonte com uma certa nostalgia e têm uma sombra triste, mas metálica, a sombra do guerreiro que nunca desiste.