Ontem o meu menino fazia três anos. Falei com a médica de manhã para ver se ainda tinha que lá ficar mas, como chegou a 38º de febre ao meio-dia, ela disse que tínhamos que esperar pela tarde para ver e que queria fazer novas análises. Aproveitei para lhe pedir que lhe tirasse o soro porque a mão já estava a inchar.
Lá fomos nós tirar sangue de novo. Pica aqui, pica ali, ele a chorar desalmadamente. Já que estávamos na sala de tratamentos, o enfermeiro tirou o tubo do soro e lá saiu o menino com uma mão inchada e uma nódoa negra no braço… e mais um valente susto que apanhou.
De tarde, brincou e não teve febre. O meu pai assentou arraiais na sala dos brinquedos da enfermaria com ele, para o distrair, e a minha mãe substituiu-o depois ao fim da tarde. Como era o aniversário dele, as auxiliares deram-lhe um bolo (”para o menino espanhol”) e as outras crianças cantaram-lhe parabéns à hora do lanche. Também ganhou um livro de pintar. Fiquei claramente com a sensação de que os hospitais portugueses mudaram muito nos últimos anos e de que são cada vez menos frios e desumanos com as crianças. Tentam colmatar ao máximo a tristeza que os pequenos sentem por estarem no hospital.
Ao fim da tarde, chegaram as análises e a médica disse que os valores estavam bem. Ele já não tinha febre desde o meio-dia e coloquei-lhe a questão de ir para casa. Eu posso fazer o mesmo que eles fazem lá com a febre se ela aparecer, ou seja, meter supositórios. Ela concordou comigo, mas sempre com a premissa de que, caso haja recaídas, eu ligue para aquele Serviço. Disse que me ia dar esse voto de confiança, porque eu lembrei-a de que estavam duas crianças bem mais doentes e sem diagnóstico na mesma enfermaria e o risco de contágio existe sempre. Saímos de lá às nove da noite, mas saímos.
Viemos para casa celebrar as últimas horas do aniversário. Arranjou-se um bolo em forma de campo de futebol à pressa e umas prendas improvisadas. O menino não voltou a ter febre até agora e pôde cantar parabéns e apagar velas e tirar fotos e fazer todas as coisas a que uma criança tem direito no aniversário. O problema é que agora tem pesadelos, em que diz que não quer que lhe façam aquilo nem lhe toquem e tem que dormir na nossa cama, mas há-de passar.
Ficou-me de lição ver crianças bem doentes, a enfermaria de oncologia infantil mesmo ao lado, pais que passam meses no hospital sem saber quando acaba o sofrimento e perceber que, no meio do azar, às vezes temos que dar graças pela sorte que temos.

