Um dos prazeres que redescobri desde que vivo aqui é o do campo. Uma pequena serra silenciosa e brava, com veados e lebres, emoldura a norte a terra onde vivo. Um campo de estradas imensas, a perder de vista o horizonte. Não tão alta como as montanhas da minha infância a norte, mas com o mistério das serras a sul.
Às vezes, digo-lhe: vamos ao campo. Outras diz-me ele a mim. Garrafas de água e bolachas para o puto, que adormece com o tecto do carro aberto e as estrelas a enredarem-se-lhe no cabelo. Vamos em silêncio, que começa onde o rádio deixa de captar. Cada qual respira para o seu lado. Estamos ali, mas não estamos. É como uma viagem a um local bem mais profundo. Normalmente, anoitece e ele diz-me: “este é o céu mais bonito do mundo”. Eu aceno com a cabeça, enquanto uma lebre ou uma perdiz cruzam a estrada em frente ao carro. Aconteça o que acontecer, ali somos sempre felizes.
Nunca há ninguém na serra. Os cavalos olham-nos, indiferentes, enquanto desfilam pelas quintas dos toureiros que ali os treinam. Há cercas e vedações, mas conseguimos olhá-los quase nos olhos, porque a serra também é deles. Não há piqueniques nem turistas. Esses preferem a praia.
Depois paramos num “mesón” à beira da estrada. Nunca é o mesmo e nunca tem multibanco. A noite, porque vamos sempre quando o sol se põe, desce finalmente e o caminho para casa é já fresco, muito fresco e estrelado. As serras do sul têm um encanto especial, por serem recortes de verde altivo na paisagem.
É um recanto nosso, muito nosso. Onde vamos os três, mas que vivemos em silêncio pelo caminho de asfalto irregular.


Imagens da Sierra Norte de Sevilha