Poderia ter sido eu a dizer isto, mas não fui (pelo menos desta vez)

Posted in blogs with tags on Fevereiro 6, 2010 by Yashmeen

Retirado do blog “A maçã de Eva”

Lições: antes e depois da conta

E eis que chegou o dia de assinar os papéis. Além de uma nova conta no banco, para não pagar despesas absurdas de manutenção, já estávamos a abrir uma poupança. Com esta não contava. E embora tudo para mim fosse natural, sem quaisquer nervos à mistura, não consegui deixar de me surpreender como cheguei ali quase sem dar conta. E enquanto ele se ria para mim e simulava discretamente a entrada de uma aliança no dedo dele, qual gangrena, percebi que não há outra explicação que não a mais simples: ou funciona ou não funciona, ou existe ligação ou não existe, ou faz sentido ou não faz. Esta coisa de andar a perder o sono por homens com quem as coisas não estão a resultar, estão quase a resultar ou são melhor que nada, acreditem, não vale a pena. Experiência própria.

Hoje já sei, tenho a certeza, que se a coisa não se acerta em poucos meses, não terá acerto em espaço temporal nenhum. E não digo isto porque foi o meu tempo, porque foi a minha experiência. Digo-o porque há cantigas que já não me convencem, gastaram-me o ouvido e a experiência, essa, teve uma altura que achei que me matava. Hoje sei que ou resulta naturalmente ou nem vale a pena insistir. Ou vale, para quem ainda não aprendeu. E o resultar não significa “para sempre” nem “até que a morte nos separe”. Pense comigo, dos grandes amores que teve na vida, não se entenderam em pouco tempo? É verdade, mas muitas vezes a esperança falou mais alto, a esperança do “agora é que vai ser”, ou “é preciso dar-lhe tempo para se entregar”, ou “isto com o tempo vai lá”. Não vai, não vai porra nenhuma. Ou é ou não é. Mas que seria de nós sem esperança?

Sobreviver aos espanhóis

Posted in Uncategorized with tags on Fevereiro 5, 2010 by Yashmeen

Eu tenho uma amiga que vive com uma espanhola em Erasmus e que sofre choques culturais constantemente. Por isso, e uma vez que me pede aconselhamento constante sobre esse bicho estranho que é a pessoa espanhola, decidi escrever este post para iluminar as alminhas que têm de conviver com esses alienígenas.

Joana, va por ti (piada taurina).

1ª – A siesta é uma instituição. A pessoa espanhola pode levantar-se às sete da matina ou às dez, mas às duas da tarde, com o bandulho cheio de fritos e comida a la plancha (já lá iremos), deita-se na caminha ou no sofá sem fazer nada e a roncar mais ou menos alto. Logo, quem vive com um espanhol corre sérios riscos de ser acordado cedo (porque o bicho é barulhento e acorda cheio de energia), mas deve estar informado de que a criminalidade em Espanha ocorre essencialmente à hora da siesta por acordar pessoas. E livrem-se os trabalhadores da construção civil (é feio chamar trolhas às pessoas) de aproveitar a siesta para adiantar trabalho, porque até a Guardia Civil os leva presos.

2º – O espanhol come a qualquer hora do dia, de preferência comida frita, com tomate, com muitas calorias e pratos rápidos. A comida pronta a aquecer é a que mais se vende no supermercado (viva as batatas pré-assadas e o lomo adobado!) e o espanhol tem sempre um saquinho de gusanitos ou salgadinhos pronto a entrar em acção. Ao almoço e ao jantar, gosta do seu peixe e do seu frango “a la plancha” (grelhado), mas sempre com umas batatinhas fritas e um pudim flan coberto de chantilly no fim. O espanhol bebe leite com café a todas as refeições e não se borra pelas pernas abaixo. Cuidado com o pequeno-almoço “typical”: a combinação de pão com azeite e tomate pode ser letal para os fígados estrangeiros, mas é uma experiência de vida pela qual é preciso passar pelo menos uma vez quando se vive em Espanha.

3º – O espanhol não conversa, fala sozinho. A ideia é falar mais alto do que o outro e a maior velocidade, para se ouvir melhor. Dá a sensação de que a conversa é um alegre debate, mas se um dos interlocutores adormecer a meio o outro nem dá por isso. Believe me.

4º – O espanhol gosta de ver tv, de preferência programas que falem da vida dos outros, onde as pessoas se zanguem e onde toda a gente exponha vivamente os seus pontos de vista, ou seja, gritem muito. A má-língua é uma instituição e falar mal da Belén Esteban (vide Wikipedia) é menos perigoso do que falar mal da cunhada, pelo que as celebridades vão aos programas justificar a sua própria vida e explicar tudo o que fazem (e com quem dormem) bem explicadinho. Fenómeno equivalente só existe em Itália.

5º – O espanhol acha o casamento gay e a transexualidade muito bem e muito normal, desde que o filho não apareça com um Manolo lá em casa e a Maricarmen não queira passar a Francisco José.

6º – O espanhol diz que vai de tapas (pequenos pratos de comida para matar o bicho e acompanhar as cañas) e que só petisca, mas na realidade enfarda valentemente, porque dez tapas equivalem a uma feijoada.

7º – O espanhol fuma em qualquer lado, mas oferece sempre um cigarrinho. Pode estar um asmático de bomba na mão que é convidado também. Até se bate à porta do vizinho quando a traça aperta. Já vivi este filme.

8º – O espanhol gosta de marcas vistosas e roupa colorida. Muito colorida. Não veste roxo porque é a cor da Páscoa nem preto porque é para funerais. De resto, todas as combinações cromáticas são permitidas, com longas melenas platinadas ou preto carvão erguidas com muita laca e muito gancho. O betume (vulgo base de maquilhagem) serve também para tapar as borbulhas que fazem os fritos e o batom é para ajudar ao vermelho dos semáforos. Quanto mais parecido a um quadro do Miró, melhor é o efeito.

9º – O espanhol é desenrascado por natureza. Se fica desempregado, arranja um biscate enquanto recebe o subsídio e não declara metade do que ganha às Finanças. Compra tudo sem factura (IVA? O que é isso) e pode até agredir e tratar mal o cliente que duvidar da honestidade daquele papelinho com o nome dele a dizer “PAGADO”. É uma factura válida, sim senhor.

10º – O espanhol deita papéis para o chão para gerar postos de emprego. Assim fomenta-se o desenvolvimento económico.

11º – O espanhol considera todos os feriados como dias santos. Há os regionais, os locais, os municipais, os religiosos e aqueles que nem se sabe bem por que existem, mas ninguém mexe uma palha nesses dias, o que dá basicamente metade do ano sem trabalhar. Centro comercial ao domingo? Isso é uma invenção de e para portugueses. Houvesse ferias e flamenquito em Portugal  e vocês iam ver o que é diversão de fim-de-semana.

12º – O espanhol vais às procissões e às romarias para se embebedar. E para dizer piadolas com os amigos. Quando a Virgem chega já o espanhol está a ver o Senhor e o anjos todos dos céus e com a décima cerveja na mão e por isso começa a gritar piropos (“¡guaaaaaaaaaaapa!”) e a levar chapadas da mulher e/ou da mãe, que entretanto foi à procissão para mostrar a roupa nova e o penteado daquele dia, mas não quer ser incomodada. No entanto, depois de a ressaca passar, quem disser mal ao espanhol do Cristo da sua devoção pode sofrer uma sessão de estalos violenta e ser recambiado pela Guardia Civil para a fronteira mais próxima.

13º – Os espanhóis do norte olham de lado para os do sul e este riem-se dos do norte. É a vida, mas depois são todos espanhóis e monárquicos quando o Rei sai à rua, embora achem que a Letizia vai ser rainha é do Carnaval de Tenerife (qual rainha de Espanha, qual quê) e digam que são de esquerda republicana ao fim da segunda cerveja com os amigos de Barcelona.

14º – Os espanhóis são quase todos bilingues. Por isso só aprendem inglês se for mesmo necessário e com isto entenda-se que é quando chegam à idade de irem para Benidorm engatar camones. Bronzeado de solário, muita água de colónia Magno, gel no cabelo e patilhas bem arranjadas – quem precisa de falar inglês se as feromonas do macho latino se fazem entender em todas as línguas? You are bery guapa.

15º – O espanhol adora a fiesta brava. Depois há aqueles que se despem em frente às praças de touros com imitações de farpas nas costas, mas normalmente fumaram qualquer coisa estragada antes e ninguém os leva muito a sério. Os toureiros são heróis nacionais e, juntamente com o Julio Iglesias, cobiçados por caça-fortunas e poligoneras (miúdas de subúrbio) de todas as idades. O cúmulo da felicidade feminina é andar com um toureiro ao lado, mesmo que só toureie lá na feria da sua terra.

16º – O espanhol idolatra os seus músicos. A Isabel Pantoja até cometeu uma fraude fiscal grave, mas que se lixe, porque canta como um rouxinol gitano e as pessoas rasgam a camisa de emoção nos seus concertos. Choram de amores com coplas e com a tecno-rumba vendida nas roulottes das ferias (vide Camela no Youtube).

Este post há-de ter continuação porque eu adoro Espanha e os espanhóis e este é um país muito divertido, com uma forma de vida muito própria. Apesar de todas estas peculiaridades, é um povo afável, amável, dinâmico e acolhedor. Sabem que mais? ¡Viva España! ¿Nos vamos de copas? Qué la crisis son dos días y uno es pá disfrutar. ;)

 

UPDATE: Reparem no mapa da Península Ibérica que aparece no vídeo :)

Coisas de Espanha

Posted in espanha with tags , on Fevereiro 3, 2010 by Yashmeen

É com grande espanto meu que cheguei à Espanha e constatei que aquela canção que repete esquizofrenicamente “wegue wegue” é um grande êxito por cá, a ponto de ser toque de telemóvel anunciado na TV e tudo. O que vale é que os espanhóis não sabem que a Buraka fica em Portugal, nessa colónia de Angola que é o distrito de Lisboa.

——

A TV espanhola é muito engraçada. Ora agora criaram um Gran Hermano (Big Brother) com todos os ranhosos (leia-se conflituosos) das outras edições. Ainda agora entraram na casa e já estão a pegar-se uns com os outros. Isto promete molho e muita galheta.

—–

Hoje fui fazer uma mudança de titularidade do meu contrato da Vodafone, para que todos os meus números fiquem em nome da minha empresa. Pois demorei uma hora a tratar do assunto e os outros clientes só reclamavam um bocadinho, mas a menina da loja dizia que “toda a gente tem o direito a ser atendido como deve ser, demore cinco minutos ou meia hora”. Ora toma.

—–

A escola pública onde o meu filho estava inscrito aceita-o de novo em qualquer mês até o ano lectivo acabar… basta avisar com um dia de antecedência e é logo inserido no sistema… o meu banco deu-me uma resposta favorável a um procedimento bancário ao fim de um dia e meio… adoro a simplicidade com que os espanhóis encaram a vida!

Esta gente tem uma visão do mundo muito divertida e descontraída…

Novidades

Posted in regresso with tags , , on Janeiro 29, 2010 by Yashmeen

- Estou em Sevilha esta semana e a próxima. Já encomendei uma cozinha nova e as obras vão começar.

- Estou a começar a tratar dos papéis para a dupla nacionadade da família inteira. Não faz sentido sentir-me espanhola, gostar tanto de viver em Espanha, querer tanto voltar para Espanha, amar tanto esta terra e este país e não ter nacionalidade espanhola, podendo tê-la. Mantenho a portuguesa por respeito à terra onde nasci e à língua que falo. O mesmo para os meus rapazes: o mais velho sente e pensa como eu e o mais novo viveu a sua curta vida praticamente toda no reino dos Borbones.

- Volto para Espanha quando as obras cá de casa acabarem (acho que lá para Maio). O pequeno até tem vaga na escola antiga, que abriu um ATL para miúdos maiores. Está tudo tratado e pode começar quando quiser.

Portugal for me is over. Sorry, mas não consigo habituar-me a isto de novo. Por diversos motivos, dos quais um dia falarei… pensei que ia adaptar-me, pensei que ia gostar mais, pensei que ia correr melhor, mas cheguei à conclusão de que quero a minha vida anterior de volta, apesar de gostar muito de vocês todos na mesma. Crazy, I know, mas um dia eu explico.

O menino da lágrima

Posted in coisas giras with tags on Janeiro 24, 2010 by Yashmeen

Quando eu era pequena, não conseguia dormir em casa da minha avó materna na sala onde ela tinha inicialmente o sofá-cama. E isto porquê? Por causa do raio do quadro do menino da lágrima e do tic-tac do relógio do meu avô na sala de jantar. Eu sou uma pessoa de nervos sensíveis e aquele tic-tac dava-me cabo do sistema. Ficava ali deitada a contar as horas e aquele menino chorão a olhar para mim até ao ponto em que eu já tinha vontade de chorar também. Sempre achei aquele quadro de péssimo gosto e bem foleiroso até e ainda sugeri à minha avó que o tirasse dali (pior do que aquilo só umas estampas de ar demoníaco que a minha mãe tinha em casa, em que uma miúda com ar assustador nos seguia com os olhos pelo corredor fora). Pois a bosta do quadro ainda anda lá na casa da minha avó e eu ainda detesto aquela estampazinha pirosa, o fato maltrapilho e a cara de vítima. Só me apetece fazer-lhe um dente podre com uma caneta.

Decidi investigar a origem e constatei que é um mito urbano. Este blog elucidou-me. Ou seja, com ou sem demónio à mistura, não passa de uma estampa foleira, só superada pelos cães de loiça e pelos bustos do Sá Carneiro. Ah, e os budas à entrada da porta e os elefantes de tromba para cima. Abençoados anos 80…

Posted in portugal with tags on Janeiro 20, 2010 by Yashmeen

Sobre a condecoração do Pedro Santana Lopes: finalmente os lacaios do cavaquismo obtêm reconhecimento por longos anos de dedicação à causa. Muitos ficam por condecorar por méritos próprios, mas esses, como dizia a Teresa Guilherme, “não interessam nada”.

El Rey Duan Juan Carlos, apresento-lhe a minha vassalagem, com a devida vénia desta republicana convicta.

Posted in blogs with tags on Janeiro 19, 2010 by Yashmeen

Com o Twitter e a febre do Facebook, noto a blogosfera menos fértil e mais pensada. Multiplicam-se os post mais profundos e quase desapareceram os desabafos do quotidiano. Sinais dos tempos ou declínio?

Requiem

Posted in Uncategorized with tags on Janeiro 18, 2010 by Yashmeen

 

Fonte: http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/ary_dos_santos/ary_biog.html

Ary dos Santos.

Oriundo de uma família da alta burguesia, José Carlos Ary dos Santos, conhecido no meio social e literário por Ary dos Santos, nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937.

Aos catorze anos, a sua família publica-lhe alguns poemas, considerados maus pelo poeta. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.

É então que Ary dos Santos abandona a casa da família, exercendo as mais variadas actividades para seu sustento económico, que passariam desde a venda de máquinas para pastilhas até à publicidade. Contudo, paralelamente, o poeta não cessa jamais de escrever e em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas ” A Liturgia do Sangue“.

 

Em 1969, ano que o próprio Ary dos Santos considerava ter marcado decisivamente a sua vida, inicia-se na actividade política ao filiar-se no PCP, participando de forma activa nas sessões de poesia do então intitulado “canto livre perseguido”.

Entretanto, concorre, sob pseudónimo, ao Festival da Canção da RTP com os poemas “Desfolhada“e “Tourada“, obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo –o da música que o poeta melhor se tornaria conhecido entre o grande público.

Autor de mais de seiscentos poemas para canções, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes e ainda um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz – Rua da Saudade, que pretendia fosse uma autobiografia romanceada.

O poeta deixou-nos a 18 de Janeiro de 1984. Postumamente, o seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na casa da Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida.

Ainda em 1984, foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro.

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Ary dos Santos, in ‘Liturgia do Sangue’

A arte de bem falar desde a infância

Posted in portugal with tags , on Janeiro 15, 2010 by Yashmeen

Sou grande consumidora de programas infantis, por vicissitude da maternidade. Não privo o meu filho de ver os canais que ele quer, mas uma constatação que tenho feito é que na maioria dos desenhos animados fala-se mal. As conjugações verbais são demasiado coloquiais e não respeitam as regras do bom português (“estou-te a dizer”; “vai-te deitar”; “vamo-nos divertir”; “vão fazer aquilo”); logo, as crianças começarão desde cedo a interiorizar estas construções viciadas e viciantes e podem chegar mesmo ao extremo de conjugar verbos como o famoso “disseste-se-o” ou “fizeste-se-o” de Lisboa (já ouvi isto da boca de gente com mais de quatro anos de escola).

É suposto os desenhos animados educarem e não perverterem linguisticamente as crianças. Estou a criar uma criança bilingue, cuja língua escolar será o espanhol e a familiar o português, e preocupa-me não poder contar com material audiovisual de qualidade para ajudar-me na tarefa de fazer com que ele não fale o típico “português de filho de emigrante”.

Ainda sobre estas coisas da língua (salvo seja), li num artigo que, uma vez mais, a norma do português padrão após a implementação do famoso Acordo será a de Lisboa. Perdoem-me qualquer coisa, meus amigos, mas em Lisboa cada vez se fala menos português. Ouçamos uma conversa entre dois adolescentes da linha de Sintra no comboio e podemos constatar que as construções gramaticais são plasmadas do crioulo, o léxico pejado de calão de diversas origens (especialmente africanas) e diversos “brasileirismos” introduzidos pelas novelas também não faltam. Não é assim que se fala no resto deste país; há um fenómeno linguístico quase exclusivo da região da Grande Lisboa derivado da fusão de raças e culturas pós-coloniais, associado a um desprezo muito “teen” pelo português bem falado e bem escrito. As bandas portuguesas mais consumidas pela miudagem, como os Buraka Sound System e os D’ZRT, ou até mesmo os mais entradotes Xutos e Pontapés (que têm uma canção inteira a repetir “vou-te”), não ajudam à festa. Os Moranguitos, esse então são deploráveis quando se trata de abrir a boca para emitir sons coerentes.

Ainda assim, mesmo com sotaques diferentes e marcados, ouço falar melhor a norte… porque “vão” não é imperativo do verbo ir e em Trás-os-Montes é onde melhor se usa o delicioso “onde ides?”…

Venenos

Posted in hipocrisias with tags on Janeiro 14, 2010 by Yashmeen

Os amigos dos meus inimigos raramente podem ser meus amigos. As facas de dois gumes cortam a dobrar e não confio em quem está de bem com Deus e com o Diabo, porque a algum vendeu a alma… Prefiro as que escolhem um lado, seja por que motivo for, e permanecem nele. Os aparentemente inofensivos, patéticos, que despertam compaixão e mendigam atenção e amizade, tornando-se o tapete que toda a gente pode pisar, são, normalmente, as víboras que um dia levantam a cabeça para minar as relações dos outros porque não aceitam, simplesmente, que nunca tiveram espaço na vida de ninguém e que não conquistam afectos pelo que são, mas pela pena que provocam.

Prefiro gente mais ou menos a estas supostas “boas pessoas”, que destilam amizade a quem quiser comprá-la e se arrastam agarradas a vícios emocionais criados no passado, mas dos quais insistem em não desligar-se…